Há pelo menos 50 anos a gestão da água está na agenda internacional (e doméstica), mas avançamos pouco e o cenário está longe de ser auspicioso. O descaso é geral: está no consumo frenético e irresponsável da água por boa parte da humanidade, no desejo de controle pelas corporações, na falta de saneamento básico, na maciça urbanização e na pavimentação de recursos naturais, na predação do agrobusiness e na barafunda de legislações, acordos e tratados. Já vivemos tensões e estamos sujeitos, até, a guerras: mais pelo controle da água do que por sua escassez
MUNDO AFOGADO
Pelo controle da água
José Eduardo Mendonça - Edição: Mônica Nunes
No filme
Vidas Secas, de 1963, dirigido por Nelson Pereira
dos Santos e baseado em obra homônima de Graciliano Ramos, um casal, seus dois
filhos, uma cadela e um papagaio vagam por uma desértica paisagem nordestina –
um cenário exacerbado pela magnífica fotografia crua e esbranquiçada de Luiz
Carlos Barreto. Eles perambulam em busca de água e de dignidade, esquecidos pelo
mundo, privados dos mais mínimos direitos – os diálogos quase não existem e, no
limite onde os homens secam junto com a falta de água, a cachorra Baleia parece
mais gente que as pessoas.
A situação da região sofreu importantes
alterações de lá para cá, com grande avanço na distribuição de
recursos
hídricos e obras de
saneamento básico – que ocorreu
também em grande parte dos países subdesenvolvidos. Mas que tipo de
água se está consumindo, e a que preço? Quanto tempo levará
para que ela se esgote novamente pela utilização ambiental e socialmente
irresponsável? E mais: quando o
esgotamento deste recurso
natural começará a levar países ao recurso da força para obtê-lo, num cenário
onde estes
conflitos principiam a se esboçar?
Cidadãos
comuns entendem a utilização da água em sua forma mais palpável e imediata, ou
seja, aquela usada nos lares para limpeza, higiene e cozinha. Pouca gente se dá
conta de que um litro de suco de laranja, comprado ontem no supermercado,
consumiu 3.700 litros para sua produção. Ou que 1/2 quilo de carne para o almoço
significou um consumo de 9.250 litros. Que o jornal lido pela manhã gastou 550
litros e, mais, que o carro que leva alguém ao trabalho necessitou de 148.000
litros até chegar à concessionária. E, ainda, que um litro de etanol preciso de
outros 7.700 litros de água. Ou seja, seres humanos têm sede, mas quase tudo
aquilo que consomem também tem.
O
consumo de água pela
humanidade, para suas necessidades básicas e para o supérfluo; a ação de grandes
corporações e instituições financeiras internacionais por seu controle crescente
e consequente precificação acima do poder de compra de partes significativas da
população mundial; a maciça urbanização e pavimentação de recursos naturais; a
predação do agrobusiness e a barafunda de legislações, acordos e tratados sobre
o assunto ajudam a compor um panorama que não é nem de longe auspicioso.
“Para o bem-estar das populações, bem como para o seu desenvolvimento,
os recursos hídricos vêm, a cada dia ganhando importância, seja nos cenários
domésticos, seja no cenário internacional. Não que essa preocupação seja nova.
Em 1960, há 50 anos, o
Clube de Roma discutiu a criação de uma
política acerca dos recursos hídricos e de seu controle”, observa
Gustavo Korte, advogado especialista em direito regulatório e
administrativo.
“Hoje, um coordenado e altamente eficaz movimento
internacional pela justiça na questão da água está lutando contra o poder das
empresas privadas de água e o abandono governamental da responsabilidade por
cuidar de recursos hídricos nacionais e por oferecer água limpa ao povo”, diz
Maude Barlow, conhecida ativista canadense, co-fundadora do
*Blue Planet Project e autora de 12 livros sobre o tema
(
Leia a reportagem Maude Barlow alerta sobre a causa da água, publicada quando
ela visitou o Brasil, e a resenha do livro Água: Pacto Azul).
Serão necessários esforços
titânicos e muita vontade política para reverter um quadro assombroso. De acordo
com a
*Organização Mundial de Saúde, 1.2 bilhão de pessoas no
mundo não têm acesso a água potável, e 2.6 bilhões não têm serviços sanitários
adequados. A
*ONU – Organização das Nações Unidas estima que
cerca de 2.8 bilhões de pessoas em 48 países viverão em situação de escassez de
água até 2025.
O tema é vasto e complexo, e a intenção desta reportagem
é de tentar despertar preocupação para o problema pela exemplificação de alguns
de seus componentes mais visíveis. Um deles, que certamente ilustra claramente
um desvio no uso da água é seu
engarrafamento em embalagens
plásticas para o consumidor final. Foi um produto de consumo luxuoso de
início, mas, já em 1970, eram vendidos cerca de um bilhão de litros de água
engarrafada em todo o mundo. Em 2006, este consumo chegava a 200 bilhões de
litros e, hoje, o crescimento do mercado é de cerca de 10% ao ano. Sem contar o
dano ambiental causado pelo polietileno tereftalato (PET), de que são feitas as
garrafas (que ainda despejam 18 toneladas de dóxido de carbono no ambiente para
cada milhão de litros), parte substancial desta água é extraída de fontes
privatizadas, em projetos de financiamento bancados por dinheiro público.
“Há que se estabelecer um acordo de comércio que importe em regras
claras para os fluxos e volumes de bens e commodities, como a água, que na ordem
atual de produção e exportação, estão destruindo regiões do planeta”, afirma
Gustavo Gazzinelli, do
Movimento pelas Serras e Águas
de Minas.
ÁGUA INVISÍVEL Estes fluxos
incorporam o que se convencionou, recentemente, chamar de
água
virtual – ou seja, se são necessários cerca de 100 litros de água para
produzir uma banana, significa que uma dúzia delas, exportada, tira do país
produtor 1200 litros (
O mapa encartado na Edição Azul da
revista National Geographic, nas bancas em 22/03, explica como
funciona a circulação dessa água no mundo). Fora a transferência de água
desta forma, a questão do desperdício é gritante. No momento, cerca de 30 a 50%
dos alimentos que produzimos – com a água virtual embutida neles – são
desperdiçados antes de chegar ao consumo, diz
Daniel Zimmer,
diretor-executivo do
*Conselho Mundial de Água, com sede em
Marselha, na França. Estas perdas se dão durante a colheita, produção, o
processamento, transporte e estocamento. Por isso, Zimmer aconselha: “Carne
consome cerca de 10 vezes mais água para ser produzida do que vegetais. Mude de
dieta e economize até 3 mil litros de água por dia”.
No caso da água
virtual, por ser um indicador recente, as informações são controvertidas. O
Worldometers – World
Statistics Updated in Real Time acaba de me informar, em seu site, que, até
o presente momento, foram consumidos este ano 905 bilhões de litros em todo o
mundo. Se você pesquisar agora, encontrará outro número. Outro site muito
interessante, o
Virtual
Water, fornece medidas mais detalhadas no caso da água virtual, assim como a
ONG
Virtual Water, a
Water Footprint, o
The Global Development Research Center e, ainda, o site de
conteúdo
Tree Hugger.
A discrepância de informações se deve à
falta de um padrão mínimo comum de medição, além de fontes que podem ser
influenciadas por lobbies corporativos ou governos locais. Aqui mesmo - no site
do
Planeta Sustentável e no
Especial
Água -, você pode encontrar números diferenciados, como é o caso do
painel sobre
Água Virtual (
apresentado no evento Planeta no Parque, no
Ibirapuera, em janeiro), que teve como fonte a Sabesp e o
post, de mesmo título.
Neste caso, o mapa da
Edição Azul da
National Geographic, que já
comentei acima, é uma ótima fonte para se aprender mais sobre a água virtual:
explica, por exemplo, quanta água é utilizada em cada fase da criação de uma
vaca, durante três anos.
UMA NOVA ÉTICA PARA LIDAR COM A
ÁGUA “O ser humano demora muito para mudar sua atitude”, diz
Cláudio Bedran, advogado e gestor ambiental ligado à ONG
*Planeta Verde. O que faz lembrar das pessoas que vemos
cotidianamente a usar mangueiras para limpar folhas ou cocos de cachorros da
calçada ou para lavar seus carros. É óbvio que não se pode culpá-las por
atitudes que decorrem da simples falta de informação (sem esquecermos – claro! –
daqueles que não se importam com o desperdício). Na maior parte dos casos, a
água é um problema cultural e de administração, mais do que de recursos. É
preciso uma
nova ética para o recurso, e que os governos se
envolvam mais em projetos para beneficiar as populações, do que as populações em
projetos de governos. “A excessiva centralização das ações relativas ao
gerenciamento de recursos hídricos que alija e aliena os setores usuários da
gestão, vem sendo apontada também como um dos fatores que impedem uma maior
proteção dos recursos e uma alocação mais racional”, lembra
Marilene
Ramos,
secretária estadual do Ambiente do Rio de
Janeiro.
No limite, mas por enquanto ainda no território da
ficção, a humanidade poderá estar sujeita a guerras, mais pelo controle de água
que propriamente por sua escassez.
Tensões já são observadas
entre Israel e países vizinhos, entre índia e Paquistão, dentro do Sri Lanka
(onde um grupo rebelde desviou um importante canal), na passagem noroeste da
região polar norte do Canadá (que os EUA querem internacionalizar) e em diversos
países dependentes do rio Nilo, no norte, leste e centro da África. O
deslocamento de milhões de pessoas de seus habitats naturais pela fuga da seca
causa também um clima de animosidade em fronteiras e países hospedeiros (
O
Dossiê Terra, publicado pela National Geographic em 2009 – que
ainda é vendido na *Loja Abril -, trata dessa questão). De acordo com Maude
Barlow, em todo o mundo, mais de 215 grandes rios e 300 bacias de água
subterrânea e aquíferos são compartilhados por dois ou mais países.
Alguns outros dados referentes à situação dos recursos hídricos no mundo
convidam à reflexão. Um ser humano médio deixa por ano no planeta uma “pegada de
água” de 885 mil litros de água – isto inclui tudo para cozinhar, para roupas e
outros produtos que consumimos que dependem dela. Na China, a pegada média é de
686 mil litros. Nos Estados Unidos, de 2,4 milhões, o maior consumo per capita
do planeta. E o acesso à água encanada é de 85% para 20% da população mundial
mais rica.
“Todo ser humano tem o direito a um padrão de vida
adequado... a seu bem estar e de sua família, incluindo alimentação, roupa,
moradia, cuidado médico e serviços sociais necessários.” Esta é parte das
*Declaração Universal dos Diretos Humanos das Nacões Unidas,
divulgada em 10 de dezembro de 1948. Exatamente dez anos antes, no romance de
Graciliano Ramos, Fabiano, Vitória, o filho mais velho, o filho mais novo e a
cadela Baleia empreendiam sua travessia num mundo crestado e sem promessa.
Publicado em:
http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/desenvolvimento/controle-agua-542061.shtml